A desistência de liderar

Démission é uma daquelas palavras estrangeiras que não têm uma tradução perfeitinha. É preciso contentar-se em traduzir esse vocábulo francês com algo como «desistência» ou «abdicação», embora o sentido do francês original fique entre o dessas duas palavras. Isso porque você pode démissioner sem no entanto abandonar formalmente um papel. Exemplo: um marido que simplesmente deixe de cumprir as funções que costuma cumprir, sem no entanto deixar de ser formalmente marido, terá démissioné. Ele simplesmente se retira e deixa rolar, indo embora de alma, mas não de corpo. A démission pode incluir o puro e simples abandono, pode antecedê-lo, mas não necessariamente.

Penso muito nessa palavra porque ela parece descrever boa parte das nossas crises atuais, que são crises de desempenho de papéis. A ambição de cumprir um papel é abandonada sem que o papel seja necessariamente abandonado. As pessoas querem casar-se sem ser maridos ou esposas, querem cargos sem encargos, prestígio sem mérito, e, no que me parece o capítulo mais recente da vasta démission ocidental, querem a democracia sem o ônus de convencer os outros. Nessa democracia, os líderes, por dispor de canetas e coturnos, não precisam efetivamente liderar.

- Pedro Sette Câmara

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